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01.jul.2025

Albert Ellis e a TREC: A Revolução Cognitiva que Libertou Emoções

Bom dia queridos. Hoje escrevi um texto sobre um dos meus mais admirados psicólogos do modelo cognitivo, o meu querido Albert Ellis. Foi a partir dele que se desenvolveu a Terapia Cognitiva de Beck, e muitas das novas tendências da TCC.

Albert Ellis foi um dos psicólogos mais influentes do século XX e o criador da Terapia Racional-Emotiva Comportamental (TREC), considerada a precursora das terapias cognitivas. Nascido em 1913 em Pittsburgh, nos Estados Unidos, teve uma infância difícil, marcada pela negligência emocional dos pais e por problemas de saúde. Ainda jovem, interessou-se por filosofia e psicologia, e foi nesse cruzamento que sua abordagem revolucionária começou a tomar forma. Após formar-se como psicólogo clínico, Ellis percebeu que os modelos psicanalíticos que dominavam a prática na época eram excessivamente longos e pouco eficazes. Decidiu, então, desenvolver uma terapia mais breve, ativa e centrada no presente, assim surgiu a TREC.
A Terapia Racional-Emotiva Comportamental parte do princípio de que não são os eventos em si que causam sofrimento emocional, mas as crenças que temos sobre esses eventos. Em outras palavras, a forma como interpretamos o que acontece conosco é o que determina o impacto emocional da situação. Para compreender isso, Ellis estruturou o modelo ABC, onde A representa o evento ativador, B as crenças que temos sobre o evento, e C as consequências emocionais e comportamentais dessas crenças. Se as crenças forem racionais, lidamos com as situações de maneira mais funcional. Se forem irracionais, reagimos com emoções disfuncionais, como ansiedade extrema, culpa ou raiva descontrolada. Posteriormente foi inserido o D que representa o questionamento lógico e empírico das crenças e o E que é a nova crença e as emoções e comportamentos que derivam dela.
Um dos pilares da TREC é o conceito de aceitação incondicional. Ellis defendia que a saúde emocional exige três tipos de aceitação:
1. Aceitação incondicional de si mesmo: reconhecer que temos falhas, cometemos erros, mas ainda assim somos seres humanos valiosos.
2. Aceitação incondicional dos outros: entender que as pessoas erram, frustram nossas expectativas e nem sempre agem como gostaríamos e tudo bem.
3. Aceitação incondicional da vida: admitir que a vida é imperfeita, cheia de desafios, perdas e frustrações e ainda assim pode ser significativa.
Esses conceitos são profundamente libertadores, pois afastam a exigência rígida de perfeição que muitas vezes está na base do sofrimento humano. A TREC busca, portanto, ensinar o paciente a identificar, disputar e substituir crenças irracionais por crenças mais racionais, funcionais e realistas, promovendo uma postura mais resiliente diante da vida.
A seguir, apresento alguns exercícios clínicos baseados na TREC, que podem ser usados em sessões terapêuticas para ajudar o paciente a praticar essa mudança de pensamento:
Exercício 1: Escrevendo o modelo ABC:
Peça ao paciente para preencher o modelo com uma situação que tenha gerado sofrimento emocional.
Modelo ABC
A (Adversidade): O que aconteceu? (Ex: Fui ignorado por um amigo)
B (Crença): O que pensei sobre isso? (Ex: "Se ele me ignorou, é porque não gosta mais de mim")
C (Consequência): Como me senti e como agi? (Ex: Fiquei triste, chorei e não quis sair de casa)
Depois, com sua ajuda, o paciente pode aprender a disputar a crença (D) e encontrar uma nova crença (E):
D (Disputa): Essa crença é lógica? Onde está a prova disso? Há outra explicação?
E (Nova crença): "Talvez ele estivesse distraído ou ocupado. Isso não significa que não gosta de mim."
Exercício 2: Identificando crenças irracionais:
Apresente ao paciente as principais crenças disfuncionais, como:
"Tenho que ser amado por todos."
"Não posso cometer erros."
"As coisas têm que sair como eu quero."
"É horrível quando não sou aceito."
Peça que ele identifique quais dessas crenças costuma manter. Depois, peça que escreva frases alternativas mais racionais:
"Ser rejeitado é desagradável, mas não é o fim do mundo."
"Posso aprender com meus erros."
"Nem tudo vai sair como eu espero, e está tudo bem."
Exercício 3: Diálogo socrático com a crença:
Peça ao paciente para escrever um diálogo entre ele mesmo e a crença irracional. Por exemplo:
Crença: "Sou um fracasso porque fui demitido."
Paciente: "Por que ser demitido me torna um fracasso?"
Crença: "Porque uma pessoa de sucesso nunca seria mandada embora."
Paciente: "Mas pessoas competentes também podem ser demitidas por motivos fora do controle, certo?"
Esse exercício ajuda a enfraquecer a rigidez da crença disfuncional, tornando-a mais vulnerável à mudança.
Exercício 4: Praticando a aceitação incondicional:
Peça ao paciente para escrever uma carta para si mesmo contendo frases como:
"Mesmo com falhas, eu me aceito como sou."
"Eu sou um ser humano com dignidade, não importa se erro."
"Não preciso da aprovação de todos para me sentir bem."
"A vida não precisa ser perfeita para ter valor."
Depois, pode-se sugerir que o paciente leia a carta diariamente, como um ritual de autocuidado emocional.
Albert Ellis acreditava que a mudança emocional começa com a mudança cognitiva, e que o autoconhecimento e o questionamento filosófico das crenças nos tornam mais livres e saudáveis. Sua proposta terapêutica é, acima de tudo, um convite à liberdade: libertar-se da tirania das crenças absolutistas, aceitar-se como ser humano falível e viver com mais autenticidade e menos sofrimento. Em um mundo onde há tantas exigências externas, a TREC nos lembra que é possível viver de forma mais racional, mais compassiva e mais leve, sem precisar ser perfeito para ser digno de amor.

Dra. Clystine Abram

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