Blog
17.jul.2025

Desrealização e Despersonalização: Entendendo e Tratando com a TCC

O transtorno de desrealização/despersonalização é um tipo de transtorno dissociativo descrito no DSM-5-TR e envolve experiências persistentes ou recorrentes de:
Desrealização. A desrealização é
a sensação de que o mundo ao redor está irreal, estranho, distorcido, como um sonho ou uma simulação. A pessoa pode descrever que:
? As coisas parecem "sem vida", "nebulosas" ou como se houvesse um "véu" entre ela e o mundo;
? As cores parecem desbotadas, os sons abafados ou os objetos parecem mudar de tamanho ou forma;
? Pode haver uma sensação de que as pessoas estão atuando, como se fossem robôs.
Despersonalização (frequentemente associada à desrealização):
É a sensação de estar desconectado de si mesmo, como se estivesse fora do próprio corpo ou assistindo a si mesmo de longe, com perda da familiaridade com os próprios pensamentos, sentimentos, corpo ou ações.
Critérios diagnósticos segundo o DSM-5-TR:
1. Presença persistente ou recorrente de desrealização, despersonalização ou ambas.
2. Durante essas experiências, a realidade permanece intacta, ou seja, a pessoa sabe que aquilo é apenas uma sensação estranha, não uma perda de contato com a realidade (como na psicose).
3. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida.
4. Os sintomas não são explicados melhor por outra condição, como uso de substâncias, epilepsia, esquizofrenia ou transtornos de pânico.
Fatores desencadeantes comuns:
? Estresse intenso ou trauma;
? Transtornos de ansiedade, como pânico;
? Privação de sono;
? Uso de substâncias psicoativas (como maconha, LSD, ketamina);
? História de trauma na infância ou eventos adversos.
Explicação neuropsicológica simplificada:
Durante situações de intenso estresse ou ameaça, o cérebro pode acionar mecanismos dissociativos de proteção. A desrealização seria uma forma do sistema nervoso "desconectar" a percepção emocional da realidade como uma tentativa de autoproteção.
Tratamento baseado na TCC:
Embora não haja um tratamento farmacológico específico, a Terapia Cognitivo-Comportamental é eficaz, especialmente quando associada a intervenções para ansiedade e regulação emocional.
Principais estratégias:
? Psicoeducação sobre o transtorno;
? Técnicas de grounding (enraizamento) para restaurar o contato com o presente;
? Reestruturação cognitiva para combater pensamentos catastróficos sobre "estar enlouquecendo";
? Exposição gradual à experiência dissociativa para redução da evitação;
? Mindfulness e respiração consciente.
Claro! Abaixo está um roteiro completo de psicoeducação para uso em sessões com pacientes que apresentam sintomas de desrealização/despersonalização. O foco é acolher, explicar o fenômeno, reduzir o medo de estar "enlouquecendo", e ensinar estratégias de regulação.

ROTEIRO DE PSICOEDUCAÇÃO DESREALIZAÇÃO E DESPERSONALIZAÇÃO
Objetivo:
Ajudar o paciente a compreender os sintomas de desrealização/despersonalização, normalizar a experiência como uma resposta do sistema nervoso, diminuir a ansiedade associada e introduzir estratégias de manejo.
1. Acolhimento e validação:
"Muitas pessoas passam por momentos em que sentem que tudo ao redor parece estranho, irreal, ou como se estivessem num sonho. Outras vezes, podem sentir que estão 'fora de si', como se estivessem observando a si mesmas de longe. Isso tem um nome e uma explicação clínica, e não significa que você está enlouquecendo."
2. Explicação psicoeducacional (linguagem acessível):
"O nome disso é Transtorno de Desrealização/Despersonalização. Ele acontece quando o nosso cérebro, por estar sobrecarregado por estresse ou emoções muito intensas, ativa um tipo de 'mecanismo de proteção'. Como não consegue fugir ou lutar, ele se 'desliga' um pouco da realidade ou de si mesmo. É como se dissesse: 'isso está demais para mim, vou me desconectar para não sofrer tanto'."
"Imagine que o cérebro está colocando uma 'névoa' entre você e o mundo ou entre você e você mesma, para se proteger."
3. Normalização e diferenciação de psicose
"Essas sensações podem ser assustadoras, mas são passageiras e reversíveis. E diferente da psicose, a pessoa sabe que isso é 'estranho', sabe que há algo diferente. Ou seja, a realidade não está perdida, só parece 'distorcida'. Isso é importante, porque mostra que seu senso de realidade está preservado."
4. Identificação dos gatilhos:
"Vamos observar juntos em que momentos isso acontece mais: estresse, falta de sono, crises de ansiedade, situações emocionais intensas? Isso pode nos ajudar a identificar os gatilhos e reduzir a frequência dos episódios."
Pode usar o Registro de Pensamento Disfuncional como tarefa de casa:
Situação/Pensamento/Emoção/Reação física/ Comportamento
Depois na sessão discutir com o paciente o que pensou e sentiu nas situações.
5. Exercício de grounding (enraizamento):
"Quando essas sensações aparecerem, você pode usar exercícios que ajudam a se reconectar com o aqui e agora. Vamos praticar um agora?"
Técnica dos 5 sentidos:
5 coisas que você vê,
4 coisas que pode tocar,
3 sons que consegue ouvir,
2 cheiros presentes ou lembrados,
1 sabor na boca ou imaginado.
Depois disso, convide a pessoa a dizer:
"Eu estou aqui. Essa sensação é estranha, mas não perigosa. Eu posso enfrentá-la."
6. Técnica de respiração reguladora:
"Outra forma de acalmar o corpo e reduzir esse estado é com a respiração. Vamos fazer juntos?"
Respiração 4-7-8:
? Inspire pelo nariz por 4 segundos
? Segure o ar por 7 segundos
? Expire lentamente pela boca por 8 segundos
(Repita 4 vezes)
7. Tarefa de casa sugerida
"Essa semana, observe quando esses episódios acontecem e pratique o grounding e a respiração. Anote os efeitos que perceber. Na próxima sessão, vamos ver o que funcionou melhor para você."

8. Encerramento da sessão
"Quero reforçar que isso que você está sentindo tem nome, tem explicação e tem tratamento. Não é loucura, não é perda de controle. Estamos trabalhando juntos para você entender, acolher e recuperar sua sensação de presença e segurança".

A TCC oferece caminhos seguros e eficazes para lidar com a desrealização e a despersonalização. Por meio da psicoeducação, de técnicas de grounding, reestruturação cognitiva e manejo da ansiedade, o paciente aprende a compreender suas experiências, reduzir o medo associado aos sintomas e recuperar, gradualmente, a sensação de presença e conexão com o mundo e consigo mesmo.
Clystine Abram

Dra. Clystine Abram

Comente essa publicação